Fechar
voltar

Indisciplina e afetividade

TOGNETTA, L. R. P. E por falar em indisciplina... um olhar sobre a intersubjetividade e seus aspectos afetivos. Anais do XX Encontro Nacional de Professores do PROEPRE: "PROEPRE: 20 Anos". Campinas, SP: Faculdade de Educação, Unicamp, 2003, p.134-140. (ISBN 85-86091)

Quando tratamos do tema indisciplina, tão presente na escola atual, parece-nos pertinente um certo saudosismo de nossa parte enquanto educadores: "No meu tempo, as crianças respeitavam seus professores. No meu tempo, bastava o olhar do pai para que cessasse qualquer comportamento indesejado. Hoje, as crianças não obedecem mais, falamos quinhentas vezes a mesma coisa..."
São discursos comuns encontrados entre aqueles que se indagam constantemente sobre as causas de comportamentos indesejados como as diversas formas de agressão física e verbal utilizadas por seus alunos.  Por que batem? Por que mordem? São indagações corriqueiras, para pequenos ou para jovens alunos.
São perguntas que delatam um fenômeno bastante conhecido: a indisciplina. Se buscarmos seu significado em dicionários da língua corrente, podemos encontrar algo bastante peculiar: "procedimento ou ato ou dito contrário à disciplina" o que nos levará a procurar então o significado de seu contrário, a disciplina, a qual encontraremos por certo, o seguinte: "Regime de ordem imposta ou mesmo consentida. Ordem que convém ao bom funcionamento duma organização. Relações de subordinação do aluno ao mestre. Submissão a um regulamento" (Ferreira, 1985)
Talvez nos deparemos com mais problemas encontrados agora do que antes de procurarmos suas definições. De fato, uma palavra tão comum contém uma complexidade de relações que nos leva a uma reflexão mais aprofundada sobre seus significados. Poderemos então, pensar a indisciplina sob alguns aspectos.
Em primeiro lugar convém que discutamos algo bastante peculiar: se pensarmos em indisciplina, a partir dos significados apresentados, podemos pensa-la enquanto desobediência. Por certo, o fenômeno da desobediência fora incansavelmente discutido pelas teorias que se dispuseram a estudar a moral e todas com igual sucesso: a obediência não é suficiente para a disciplina interior. Sim, é provável que seja para a disciplina externa, aquela compreendida enquanto seguir a ordem da autoridade, mas não para uma disciplina que legitime valores e princípios inegociáveis ao sujeito em quaisquer situações as quais se encontrar. Á moral da obediência Piaget chamou de heteronomia, exatamente por conter uma disciplina externa, cuja obediência apenas promove a formação de sujeitos austeros ou submissos. (Piaget, 1932/1994)
Ainda para ilustrar nosso intuito de evidenciar as conseqüências mórbidas do que chamamos de obediência, poderíamos citar uma página notável de Piaget quando torna importantes tendências que parecem menos preocupantes que a rebeldia ou a indisciplina e que costumeiramente, não nos ocupamos delas. Segundo ele, à obediência se mesclam sempre tendências chamadas de "pseudomasoquismo" enquanto certa humildade e submissão para chegar ao poder como um disfarce que engana ao próprio sujeito e outras chamadas de masoquismo, propriamente dito, carregados de insatisfação de inadaptação, de volta ao passado. Uma "introversão perigosa" diria, responsável por produzir tímidos, melancólicos e, sobretudo aqueles que parecem indolentes, ociosos. Aqueles meninos e meninas pouco participantes, estéreis de novas idéias de entusiasmo.  O que pode ser ainda pior? A incapacidade de perseverar quer em seus gostos, quer em seus trabalhos. .Nas palavras do próprio Piaget (1994):

 Não é, propriamente falando, nem preguiça nem falta de atenção ou de vontade resultante de crescimento orgânico, é um defeito inveterado de certos caracteres, susceptíveis, por outra parte, de energia.(...) Correm atrás de não se sabe qual meta imaginária. Mais tarde terão no amor afetos ardentes, mas passageiros, que tragam sem causa o medo de ser completamente absorvidos. Uma incapacidade de amar, no fundo, de comprometer-se de entregar-se. Um intento eterno, sempre voltando ao começo.

Em uma palavra: podemos nos lembrar do quanto nos apresentamos amedrontados diante de situações novas, do quanto não sabemos fazer escolhas, do quanto não manifestamos o que pensamos e sentimos em nossas relações com os outros para entender os males causados pela obediência.
Se quisermos, portanto, vencer a indisciplina, a obediência à autoridade deverá ser substituída por relações de respeito mútuo, em que alunos e professores possam pensar sobre seus atos, tomar decisões conjuntas e terem garantidas escolhas entre princípios inegociáveis. Não obstante, damos escolhas às crianças que suscitem a necessidade de um compromisso respeitado, quando dizemos a elas, por exemplo, quando derrubam comida " você prefere que eu lhe ajude a limpar ou você limpa o que sujou, sozinha?" permitindo-lhe uma tomada de decisão não por algo que é inegociável: quando se suja, mesmo que sem intenção, é preciso que se limpe. (Vinha, 2000)
Nossa segunda reflexão: a idéia de disciplina enquanto uma ordem que convém ao bom funcionamento parece claramente remeter-se às relações estabelecidas entre alunos e professores.  Agora, se pensarmos em seu contrário, pela indisciplina, essa ordem não será seguida, ou então, não será conveniente a uma das partes. Bem, se assim afirmamos, poderemos dizer que um ato indisciplinar é um sinal de que alguma coisa não vai bem ou não está conveniente. O problema é, conveniente para quem? Claro, pensariam alguns céticos, conveniente ao professor que sabe qual o princípio a ser cumprido. Bem, mas a questão é ainda mais profunda.
Há mais problemas nessa nossa primeira idéia: um, refere-se a uma tendência em considerarmos os problemas de ordem cognitiva, quando as crianças não conseguem aprender, como questões morais. A escola considera moralmente incorreto não saber tabuadas, não saber ortografia e os demais conteúdos que esta instituição se propõe a transmitir. Portanto, costumeiramente ouvimos pais e professores atribuírem rótulos de " sem vergonha" às crianças que não aprendem.
 Uma das grandes discussões contemporâneas sobre a educação nos revela um saber esquecido, porém já conhecido pela escola à luz das investigações psicológicas que se desenvolveram no século passado sobre a natureza do psiquismo humano: os processos utilizados pelas pessoas no ato de conhecer. Freqüentemente nos esquecemos de considerar que as crianças possuem hipóteses muito peculiares a respeito de como se forma um número, de como se escreve determinada palavra ou outro conhecimento qualquer. Tendemos a acreditar que as crianças aprendem sentadas, enfileiradas, em silêncio, porque nós adultos, o conseguimos fazer. Não fora por acaso que as descobertas piagetianas atribuíram à ação da criança o princípio de todo e qualquer conhecimento. Quando as propostas metodológicas que apresentamos às crianças como estratégias de ensino- aprendizagem não correspondem aos processos psicológicos pelos quais elas constroem suas idéias sobre o mundo, quando tais propostas não se adequam à sua necessidade de pensar a partir das ações, das manipulações físicas, do trabalho em pequenos grupos que possibilitem os desequilíbrios, do exercício das escolhas, da participação efetiva nas decisões sobre o plano do dia, dificilmente a "ordem" será conveniente à parte mais fraca do sistema "os alunos".
Bem, dizíamos que a escola tende a tratar os problemas de aprendizagem como problemas morais. Sim, diriam os mais relutantes, mas se tornam problemas morais quando as crianças já não se concentram e atrapalham os outros, quando não fazem o que lhes é solicitado.
O que estamos a dizer é que os problemas de conveniência da ordem precisam ser pensados primeiramente do ponto de vista da adequação do trabalho pedagógico que se realiza em sala de aula. Significa afirmar que será necessário um olhar mais preciso sobre as estratégias de trabalho muitas vezes incoerentes que desencorajam o interesse e não atendem às necessidades infantis.
    E para encerrar nossa primeira discussão, acreditamos ser bastante interessante o exemplo a seguir: refere-se a um pequeno relatório organizado por uma diretora a um pai de um aluno dito indisciplinado: mais que um relatório, esta é uma "queixa" aos pais. Observemos a relevância das atitudes da criança em não cumprir com as estratégias determinadas pela professora para aprender:

Os responsáveis do aluno MB foram convocados porque o mesmo apresenta comportamento inadequado, não respeitando os colegas e professores e as regras básicas de convivência:
-    Nega-se a desenvolver a atividade proposta.
-    Responde grosseiramente à professora dizendo só quem lhe dá ordens são seus pais,
-    Tira a atenção dos colegas
-    Enche o depósito do apontador com pó de gir
-    Não copia a tarefa
-    Joga os materiais dos colegas no chão. Não termina as atividades de lição de casa
-    Arranca as folhas do caderno com matéria dada.
-    Cobre as anotações da professora fez no caderno com tinta preta
-    Chega atrasado após o recreio (10 a 15 minutos)
-    Não deixa os colegas realizarem a prova e se recusa a terminar a dele.
-    Joga seus materiais no chão para chamar a atenção ao ser chamado a atenção diz que não está fazendo nada.
-    Brinca muito em vez de resolver as divisões
-    Foi para chuva durante o recreio (chuva forte e de vento) ficando sem condições de assistir o restante da aula
Os pais se comprometem a leva-lo a um especialista para ajuda-lo.

Parece que os comportamentos indesejados apresentados pelo aluno são como um fim em si mesmos: eles são tratados como produtos finais e não como sinais de que alguma coisa não vai bem. De fato, a inconveniência é por último, retransmitida aos pais, que menos ainda sabem como lidar com ela. Um processo queixoso de quem deveria ser especialista no quesito educação é solicitado aos pais: que procurem outro especialista.
Ora, mas podemos pensar na altura dessas reflexões: isso significa dizer que todos os comportamentos inadequados dos alunos podem ser tomados enquanto culpas da escola e suas inadequações? Por certo, não estaríamos sendo justos com uma boa parcela de educadores que se dispõe a compreender e promover a adequação de suas metodologias à questão do desenvolvimento humano.
Bem, é preciso então pensar a indisciplina sob seu terceiro aspecto: o primeiro, só para que nos lembremos, referiu-se ao fato de que associamos à disciplina a idéia de obediência sem nos atentarmos aos males que esta última nos causa, o segundo remete-se ao fato da escola tratar como um problema moral os problemas de aprendizagem das crianças. E finalmente, o terceiro, e mais instigante, até porque tão pouco lembrado, refere-se à característica notadamente humana de mover-se em busca de um equilíbrio interno, por uma espécie de "energia" que nos faz simplesmente, sentir.
Fundamentemos um pouco essa questão: essa espécie de energia que move as ações humanas refere-se à afetividade. Investimentos afetivos sobre os objetos (no que esses se apresentam enquanto pessoas, ações, coisas....) são realizados a todo momento e promovem uma certa projeção em si mesmo, ou seja, participam da formação de uma identidade própria. O fato é que nessas relações de trocas recíprocas, nem sempre as crianças, ou, qualquer um de nós, são capazes de organizar-se internamente para autocontrolar-se num momento de fúria, ou então, autoconhecer-se para expressar com clareza " Eu estou muito zangado com o que você me disse". Quantos de nós enquanto adultos não conseguimos desenvolver em nós uma capacidade, novamente, humana: a representação, e por ela, transformar raivas e descontroles em possibilidades mais equilibradas de confronto - pelo diálogo - o que nos diferenciaria de outros animais que se utilizam de violência física para resolverem seus problemas!
Em outras palavras, nem sempre temos a sutileza para compreender que as formas pelas quais as crianças expressam suas tristezas, seus desalentos, seus medos, não é a forma mais evoluída conhecida pela humanidade. Como expressam o desejo inconsciente de estarem dissociadas da mãe? Fazendo escândalos em supermercados ... Como expressam o medo de uma separação dos pais? Batendo, mordendo, chutando, mentindo.... Freqüentemente, acreditamos serem "maldades" das crianças quando assim se comportam e nos fazem também nos sentirmos indignados. Bem, se assim pensarmos, podemos considerar que classificar as pessoas em boas e más e enviar bilhetes para seus responsáveis é suficiente de nossa parte. Mas se compreendemos que seus comportamentos refletem desejos e medos inconscientes de auto-afirmarem-se, poderemos agora, continuar nossa conversa sobre como lidar com a indisciplina.
Faltam-nos ainda algumas palavras: de fato, sabemos, enquanto adultos, o que é justo ou não é (ou deveríamos saber...) o que é bom ou não que se faça nas relações entre uns e outros, mas o  nosso grande problema é que não sabemos como fazer para garantir tais princípios. Em outras palavras, sabemos efetuar diagnósticos precisos, sobre problemas ditos "afetivos" de nossos alunos, sobre questões de inconveniência da ordem, mas não conhecemos formas de favorecer para que tais conflitos sejam superados.
Em uma palavra, e talvez última: cuidar da indisciplina é encara-la não como sinônimo de maledicência, mas sim de certa incapacidade que as crianças têm. Por certo, elas precisam de escolas que lhes permitam manifestar seus sentimentos, o que gostam, o que não gostam, suas raivas, suas tristezas para que, quem sabe, num conflito ou em qualquer situação em que se vejam acuadas não necessitem expressá-los sob as formas mais comuns as quais tão bem conhecemos.
Indisciplina e afetividade são temas, portanto, que se convergem no sentido de que o primeiro pode ser vencido quando um olhar sobre suas manifestações garanta a oportunidade de que as crianças possam ter seus sentimentos respeitados, descritos. "Vejo o quanto você está com raiva, vejo o quanto você está chateado, mas você vai precisar encontrar outra maneira para mostrar isso, pois não se bate nas pessoas" é exemplo de uma oportunidade dada a uma criança para sentir-se aceita. Segura, porque não dizer, porque terá, no adulto, alguém cuja mansidão ensina, com o exemplo, humaniza, e que aprende a mais bela lição: de que aspereza, irritação, ignorância, se combate com brevidade, com sabedoria e com paciência.
Se quisermos superação à ordem, se quisermos a excelência em termos de princípios garantidos, é bom que cuidemos de nossa postura, nosso olhar diante de algo que nada mais é do que um pedido de socorro daquele que o expressa: a indisciplina. Enfrenta-la com afetividade, não significa, enfim, trata-la "carinhosamente", mas sim, entender que formação da identidade daquele que se apresenta em nossa frente, dependerá da oportunidade impar de se expressar e de se fazer compreendido.

Referências bibliográficas:
DE LA TAILLE, Yves.: Vergonha, a ferida moral. Campinas, Editora Vozes, 2002.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. (1985).Dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira
MANTOVANI DE ASSIS, Orly. Desenvolvimento moral. In: Proepre - fundamentos teóricos. Campinas: LPG/FE/Unicamp, 200. 3a. edição.
PIAGET, Jean. Inconsciente afectivo e inconsciente cognoscitivo. In: Problemas de Psicología Genética. Rio de Janeiro: Ed. Forense Universitária, 1975.
_______. O juízo moral na criança. São Paulo: Summus, 1932/1994.
TOGNETTA, Luciene Regina P. A construção da solidariedade e a educação do sentimento na escola. Campinas: Mercado de Letras, 2003
VINHA, Telma P. O educador e a moralidade infantil. Campinas: FAPESP?Mercado de Letras, 2000.

tactos
blogger faceBook Twitter You Tube